terça-feira, julho 17, 2007

Adversidades

Esqueci-me das chaves de casa, tenho mesmo de voltar atrás porque sei que, quando chegar a casa não tenho ninguém que me abra a porta. Já ia a meio caminho, toda cheia de pressa, ou não fosse a vida uma correria e eis que me esqueço da porcaria das chaves de casa. Apanho o autocarro de volta a casa, tendo relativa sorte uma vez que não pararam pessoas nas passadeiras e os semáforos eram de um verde esperança confortante. Começo a andar cada vez mais rápido e eis que um dos saltos se parte - isto de andar com figura estilizada tem os seus contras - e sai-me um foda-se! contra todas as regras de bom comportamento feminino, se é que isso existe. Subi as escadas até ao segundo andar meio a coxear e com os bofes de fora por toda aquela correria. Suada, cansada depois de uma hora e meia a arranjar-me e toco à campaínha. Sorte, a minha mãe ainda estava em casa.
Vou ao quarto, remexo as gavetas, vasculho os recantos, analiso superficies onde nunca poria as minhas chaves de casa. Começo a ficar enervada. Pergunto à minha mãe se as viu e como é óbvio ordenou-me a procura delas na minha mala. Oh mãe por favor, acha mesmo que se as tivesse na mala não tinha procurado logo? A mãe também sai-se com cada uma... Tinha que telefonar ao meu chefe para avisar do atraso, meto a mão á mala para achar o telemóvel e, escusado será dizer que esta mala, como todas as minhas malas e todas as malas de mulher, é a minha segunda casa. Freneticamente revolvo e não encontro o telemóvel, encontro sim as minhas chaves de casa.


Chego ao trabalho mas não entro logo na sala onde me aguardam montes e montes de projectos, maquetes, papéis, Rotrings e afins. Faço-me de parva e aproveito a desculpa do atraso, direi que o trânsito estava caótico, que a minha rua estava em obras e o mais incrível é que havia um acidente numa artéria importantíssima.
Tomei o meu café descansadíssima e fumei o meu cigarro sem preocupações, como se estivesse em casa a ouvir Chopin. Esqueci-me de tudo durante 5 minutos. Olhei para o relógio e afinal não estava assim tão atrasada e fui ter com o chefe. Antes que eu começasse a falar, o calvo senhor de cachimbo ao lado e olhar imponente, estendeu-me uma revista, sendo que o artigo que tinha escrito tinha sido aceite e surgiu o convite para ser colaboradora na secção de artes. Chouette!
Deu-me os parabéns, sem desfazer aquele ar sisudo e disse-me que hoje podia ir para casa.



Senti-me uma miúda e para que o cenário ficasse em sintonia com o estado de espírito, comprei um sorvete. Nada de mais, não fosse eu estar de fato, muito bem penteada, de saltos e, digamos que não é costume este cenário. Dirigi-me a um parque e decidi soltar-me, tirando o casaco, os sapatos, o elástico agonizante do cabelo e andar pela relva. Que liberdade! O contacto com algo natural dentro de uma cidade, o pensar por momentos que temos um espaço verde e que, de repente, podemos passar a não tê-lo pelos fracassos cometidos ao longo do tempo.
De repente o telemóvel toca e, por muito que gostasse, não era o meu namorado, era a minha mãe em pânico porque tinha uma dor no peito e pensava que era um ataque cardíaco.



No hospital, urgências, lentidão, passividade. Perguntei pela minha mãe e as respostas eram inconclusivas. Ainda estava a realizar alguns exames mas como é óbvio fui para perto do local onde estava para que visse que eu estava ali para ela.
De repente, vejo a minha mãe saír de uma sala e pergunto-lhe como se sente, Bem filha, não há-de ser nada, vendo-lhe lágrimas nos olhos ao mesmo tempo que sorri de uma forma angelical.
Esperei uma hora, a pensar no que se estaria a passar com a minha mãe e por momentos temi o pior, lembrando-me que nem sempre fui a melhor filha. Não quis pensar nisso nem tão pouco transmitir-lho assim que a visse de novo.
O médico veio com o resultado dos exames. O toque agudo do meu telemóvel ressoa e eu apresso-me a desligar a chamada. inevitavelmente reparo que é o meu namorado.
A minha mãe tem a saúde de um touro, o coração óptimo, uns pulmões impecáveis. A dor é apenas muscular.



Vejo o telemóvel, uma mensagem curta do meu namorado: Amo-te! Como se isso fosse o suficiente, depois de me ter tornado fria perante ele, depois de me ter traído a confiança, depois de me ter recusado conversas necessárias e de estar sem me dizer nada há uma semana. Amo-te? Podia dizer que queria falar comigo mas acomodou-se a uma palavra que pensa querer dizer tudo mas no fundo, nesta circunstância, não quer dizer nada. Não preciso de a ouvir, preciso que ma demonstre.
Queria novamente estar no parque, naïve, a pular na relva, a ser livre, em sintonia com o meu estado de espírito.