quarta-feira, setembro 16, 2009

And it remains the same

Em 2007 escrevi algo que descreve um estado de espirito actual da melhor forma


Release me

Fujo do tempo, fujo da saudade mas eles teimam em ficar e constantemente pedem-me explicações. Os dois em conluio para me fazerem questões, fazer trabalhar o cérebro, colocar em causa o que tenho como certo, como que dizendo «esquece o agora e olha para nós».
Flashback e eis que surgem sorrisos, cabelos loiros, birras, cheiro a mar, dois pedaços de pano rasgados - caí a andar de bicicleta e rasguei as calças de forma brutal - e o beiço rachado, dois medos - o de ficar sem pai e mãe e de ninguém gostar de mim - e o mundo a tratar-me por menina.
Noite e um cheiro a acre no chão, do mijo dos cães e do vómito de um transeunte que abusou da vodka e de outras bebidas brancas. 5h da manhã e não sei para onde ir, só me aparecem luzes fortes, de um fuscia brilhante que não consigo descrever, diria estupidamente agressivo e só me consigo lembrar de músicas dos Skunk Anansie e do estalo que dei a um miudo que gozou comigo na primária porque simplesmente escorreguei e caí desastradamente. Rio sozinha e sinto-me observada. Rirão de mim ou para mim? Sigo em frente e o fuscia desapareceu. Oiço uma daquelas músicas de uma loira qualquer pensa que canta e não sei que horas são, por isso pergunto ao taxista, olvidando o relógio do meu pulso e o telemóvel. 5h30 da manhã, numa avenida qualquer, a caminho da realidade que parece repisar todos os dias os calos que a vida me fez: os desgostos - ser, estar, pensar, sentir nesta corja. Chego a casa e esqueço-me do resto mas o fuscia regressa.
Olho-me ao espelho e de repente a visão dos bocados de vidro a virem na minha direcção como castigo de eu me reflectir nele todos os dias. Concentro-me e não me reconheço ali, naquela imagem de cara macia, menina do secundário, sem borbulhas, com brilho no olhar, com traço de provocação, cheiro dos primeiros cigarros, água de colónia de bébé, nariz empinado, ar seguro, firme, angélica.
Olho para dentro e solto um grito... Não quero demonstrar a face negra nem lembrar-me dos cabelos loiros. Quero ser eu mas não me deixam: porque sou sempre de menos ou demais em qualquer circunstância. O que hei-de ser? Segura como o espelho vê? Calculista? Fria? Dizer o que penso ou esconder para mim? Usar um tom forte na voz, ou sensual? Abstraír-me ou envolver-me mais? Ler mais sobre economia, sobre direito, sobre política para verem que sou inteligente? Deixem-me....
Estava a chover quando quis saír de casa novamente para o mundo, para o quotidiano de todos os dias e apercebo-me de mim, por isso não me definam, não me rotulem nem me esquematizem em vossos planos. Sou um pedaço de muita coisa, podendo ser só um pedaço de chão ou um pedaço de céu, mas não. Escondo-me nos lençóis timidamente e não contarei isto a ninguém. Adormeço e sai-me um «deixem-me».