terça-feira, março 11, 2008

São os loucos de Lisboa

De manhã, as caras sempre iguais cruzam-se no metropolitano, no autocarro, onde imperam o sono, a apatia, a agonia de mais um dia na semana. Reparo em alguns dos rostos e, por acaso, não me sai um irónico sorriso perante aquilo que se encontra à minha frente: um pedinte, invisual, a saír do metro, outro a entrar com o seu contínuo «tenha a bondade de me auxiliar». Todas as restantes pessoas a olharem para o nada, todas com um objectivo e todas com meios singulares de o alcançarem. Ás vezes penso se terão todas elas um objectivo, se não haverá vazios nas pessoas em quem menos esperamos que hajam vazios, as chamadas pessoas de bem, as bem vestidas, as aparentemente bem sucedidas. Até eu, que me considero de bem, com uma vida pacata, caio muitas vezes na melancolia de não ter um objectivo, de me deixar arrastar nesta sociedade tão deprimente, tão canina, tão demente. Não obstante, canto para mim os versos de uma conhecida música: «são os loucos de Lisboa que nos fazem duvidar; que a terra gira ao contrário; que os rios nascem no mar» e o pensamento torna-se temporário e, como não poderia deixar de ser, o à-vontade juvenil apodera-se de mim e dá-me força para enfrentar o dia-a -dia.


Não deixa de ser cobarde, porém, que ponhamos em cima da mesa a sociedade (ou os seus componentes) como os culpados por frustrações nossas. Eu não acredito em sorte nem em azar, acredito em acontecimentos, em factos. As pessoas chamam-lhes muitos nomes, eu fico-me por factos, acontecimentos que sucedem muitas vezes por não estarmos à espera (mas como a humanidade tem de conectar tudo ou quase tudo ao sobrenatural....).
Devemos sim acreditar em nós, retirarmos o bom que existe nas coisas e não darmos ouvidos aos loucos de Lisboa