Sem Título
O que interessa nesta vida?
Não será o canto da ave anunciando a Primavera?
O trigo a doirar num campo cheio de Verão?
A água primeira do Outono?
Ou o frio que sentes no Inverno?
(enquanto penso,as perguntas ingénuas atropelam-se e querem todas saír ao mesmo tempo)
E se um dia não houver nada disto?
Ou se eu um dia me tornar um bocado de coisa alguma?
Sem sentimento, tábua rasa, sem dor nem amor.
Se perante situações nas quais é suposto rir, chorar?
Virar as costas quando alguém, para mim, estiver a falar?
E se as estrelas caírem e uma delas me acolher,
ficando eu com a sua luz?
Ou então o vento leva-me e eu nunca mais volto,
De certo não faria falta,
de certo não ia ocupar memórias.
Nada resta nesta vida senão a saudade,
senão a migalha de pão pelo qual se sua todos os dias.
Resta-me a lembrança de ser criança, ingénua, sem medos.
Agora nada me protege.


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