A imprensa e o povo
Muita saliva escorre quando se fala de imprensa, quer seja esta amiga ou inimiga, segundo o traçado que o senso comum esboça. Sem querer ferir susceptibilidades, o trabalho jornalístico, de forma geral, em Portugal, é tão somente escrevinhar sobre assuntos que cheiram a mofo. Existe uma repetição aguda, um sensacionalismo berrante, vindos de cabeças que, muitas vezes, podem dar mais. Não acredito que seja apenas o povoléu a ditar as regras, existe sim uma interdependência entre quem escreve e quem lê, sendo que tem de se dar informação reeducando os hábitos do leitor, porque a psicologia prova que nós somos essencialmente «hábitos». Entendo o nível de literacia no nosso país como um escape a esta questão pertinente, contudo o jornalista não deve alimentar esta inércia.
Um público especial, os homens, deverá apenas ter como capas de revista meninas semi-nuas a segurar uma banana descascada? Ou deverá apenas ter a informação de que o Cristiano tem x ou y namorada? Igualmente especial, o grupo das mulheres, deve apenas ter informação do que a Felismina fez à Raimunda na novela «Sou como um rio»? Esta é uma questão que fomenta e cimenta cada vez mais a teoria das diferenças entre os géneros, baseada em frases feitas e anedotas que se tornaram numa realidade bacoca.
Um exemplo, citado por Inês Pedrosa na Única, revista do jornal Expresso, é a importância dada a José Mourinho quando este sai do aeroporto e entra no carro. Meu Deus! exclamaria se acreditasse mas sai-me um palavrão plebeu. Como é que o XXI Encontro Internacional da Associação Brasileira de Professores de Literatura Portuguesa passa em branco? Será que a nossa cultura é Mourinho, Cristiano, Soraia Chaves, Merche Romero e afins?
Está mais do que na altura de nos desenvencilharmos de cordas sufocantes e darmos valor aquilo que é nosso, abrirmos os horizontes, para não ter de ouvir, como já ouvi, por parte de jovens da mesma faixa etária «o nosso país é pequeno». Alguns são jornalistas.


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