Quotidiano
Realmente não existe nada de novo e o mundo gira sempre da mesma forma, como nós: casa-trabalho-casa; casa-escola-casa; casa-saída nocturna-casa, aos fins de semana. O despertador estático e estridente pontual; os mesmos transportes públicos com caras enfadonhas de todos os dias (sempre há o automóvel, bem como as filas no trânsito); o impulso de olhar para o relógio vezes sem conta; o mesmo trabalho de sempre sem função distinta daquela que nos foi confinada; o almoço à pressa (ou nem há tempo para comer uma refeição de jeito e para« gente»). Chegar a casa e ter um rol de coisas ainda mais fatigantes para fazer: jantar; quem tem filhos terá de lhes dar a devida atenção; passar a ferro, arrumar papelada, deixar a cozinha arranjada. Este é apenas um dos muitos retratos possíveis na nossa sociedade que nos faz realmente pensar no que existirá de novo, algo que nos faça ter uma reacção diferente de um franzir de sobrancelhas e taquicardias.
Hoje na travessia do rio Tejo (sentido Lisboa-Barreiro) sentei-me num dos bancos da frente, no primeiro andar, pensando encontrar um pouco de paz e reflexão. A brisa estava maravilhosa, o sol lindissimo, o som da ondulação provocada pelo barco fez-me pensar que estava numa Ilha paradisiaca. Cinco minutos bastaram para que este pensamento evaporasse. Um grupo barulhento de meia dúzia de mulheres atracou-se aos bancos à frente do qual eu estava sentada e, duas delas sentaram-se nos dois bancos ao lado do meu. Falaram de tudo e mais alguma coisa com risinhos histéricos, gritinhos de furar tímpanos, bracejos desastrados. Mostraram fotografias de casamentos umas às outras, falaram do concerto do Tony Carreira e o resto não prestei atenção porque as senhoras aniquilaram o meu espírito curioso e atento.


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