sábado, abril 14, 2007

Lembro-me de mim algures entre a árvore da ciência, que nem bem nem mal tem, e um cheiro qualquer de uma rua de Marraquexe, dou por mim a olhar-me obssessivamente e penso que ando à deriva num mundo cada vez mais obsoleto e com o esqueleto podre. A água escalda e os pensamentos vão, pelo cano abaixo, juntamente com a água e espuma cheirosa, cheia de pêssegos, amêndoas doces e um travo de leite. Oiço uma segarrega vinda do rádio, esse objecto raro nos dias que correm, e esqueço-me da estima que lhe tenho virando com firmeza o botão para o off e dando-lhe uma pancada desdenhosa, que eu ando realmente com um espírito rebelde, sem conseguir ser o que quero, porque todos me adoram assim: uma sensível saída de um filme dos anos 50, muito pestanejante, muito dedicada, muito formosinha, muito caladinha porque as mulheres não foram feitas para falar.
Não sei se sou eu que tenho a mania de que a terra gira ao contrário ou se são as pessoas que andam viradas do avesso, diz-me um velhote do café onde costumo ir em dias de não me apetecer ir a lado nenhum, e eu aceno-lhe afirmativamente entre um trago decidido no café e uma olhadela de soslaio no jornal tão banal como quem o escreve.
Volto à cama de onde hoje não devia ter saído e sinto um corpo a meu lado de todos os dias que eu adoro mas que não quero. Sinto-me ser beijada atabalhoadamente e viro-me ao encontro do rosto que venero mas as feições parecem-me horríveis desta vez, um olhar baço sem o brilho do amor. Toma-me nos braços e eu, sem defesa, deixo-me ir cerrando os dentes com toda a força e entupindo o pensamento de como poderei ser eu usar aquele traste. Não me ocorre nada, sou demasiado sensivel ou estupidamente sensível e digo que o amo. Ignora-me e passados alguns minutos chama-me outro nome, de uma mulher que conheço bem. Pensavas que eu tinha cabelos escuros?, pergunto-lhe sem no entanto ver a mínima importância no seu semblante, São claros meu caro! Saio dali, porque não me apetece aquele cheiro carnal, devasso e deixo-lhe uma nota na mesinha de cabeceira porque o desempenho não foi mau de um todo e um bilhete escrito muito à pressa com ordens de se ir embora porque afinal sou eu que pago tudo naquela casa. Compreendeu bem a mensagem e eu desfeita em lágrimas, queria que voltasse mas lembrei-me do que o meu pai me disse, o unico homem que gosta de ti sou eu, e sofri calada o resto dos dias da minha vida.