quarta-feira, abril 25, 2007

Liberdade

Ainda me lembro de ver o meu irmão a discutir sobre política, em casa, sempre à hora do jantar, com o meu pai, cujo sonho maior era ver-me vestida de branco a subir a um altar e jurar perante Deus o apoio incondicional ao meu marido. Lembro-me ainda mais da minha mãe, sempre atenta aos pormenores da conversa, com um laivo de timidez olhando para nós como quem não percebe do assunto. Nunca foi muito de falar, guardava os pensamentos junto da caixa da costura com os utensílios frios e passivos. Murmurava por vezes a música «Oração» interpretada pelo António Calvário, em jeito de reza e suspirava muitas vezes, lamentando a vida que tinha e o cheiro do perfume da outra mulher. «Deixa-te de parvoíces, só te quero a ti» era a frase que ouvia mais do meu pai dirigida à minha mãe, até eu acreditava nela até que o vi a sorrabar uma fulana bem mais nova que a minha mãe. Continuava a dizer-me que queria ver-me no altar e eu sempre a negar-lhe a vontade: já tinha tido dois namorados à socapa e nenhum me agradou - diziam a mesma coisa que o meu pai dizia à minha mãe....


Hoje é dia 25 de Abril, dia da Liberdade!
O excerto atrás é como quase tudo o que escrevo, fruto da minha imaginação, num rasgo de ímpeto misturado com um pouco daquilo que se vê por aí. Não tem nada de didáctico, mas este blog tem por tema, também, os impulsos e isto, meus amigos, é liberdade! (salvem-me dos risos, por favor, porque para me rir já cá estou eu)

Viva o 25 de Abril, viva a Liberdade!!!!

quinta-feira, abril 19, 2007

Breves sobre futebol

Começa o campeonato, desenrolam-se comentários de rivalismo saudável entre os amigos, esboçam-se expectativas quanto aos clubes. De súbito, os três grandes (F.C. Porto, Sporting C.P. e Benfica) invadem mesas de café, restaurantes, transportes públicos, ambientes de trabalho, sendo a conversa sempre a mesma, sem pingo de racionalidade pois a «clubite» é uma doença que afecta as mentes. «O Glorioso este ano vai limpar tudo» ouve-se em jeito de sketch televisivo de comediantes do Gato Fedorento do tipo «15 a zero pr'ó Benfica». Vamos lá falar de futebol, mas agora a sério.
É importante falarmos de todos os clubes que integram a liga, porque sem eles o nosso clube, seja ele qual for, não faria sentido. É fundamental admitir a superioridade dos adversários, nas diversas partidas quando eles assim o são: superiores. Urge haver uma clareza total e imparcial no diálogo futebolístico, no sentido de, para além da nossa «clubite», haverem palavras saudáveis, abertas e sobretudo, humildes.

O Sporting começou bem a pré-época, o campeonato um pouco menos folgado mas com o mesmo fio de jogo. Apostou, muito bem, em Miguel Veloso; arriscou Romagnoli que deu resultados no início, irregularidades a meio mas regressou a uma boa fase; atreveu-se a um Bueno do qual mal se ouve falar mas que, de repente, salta, mostra a garra e marca golos de rajada. Os jovens Nani, Moutinho (este último muito temido e, consequentemente, muito «atacado») sempre em forma. Maré de empates e as palavras sarcásticas voltam à cena, por parte das massas opostas. Palram «vamos ser campeões» e «o nosso treinador é o maior».

Eis que o plano de Vieira não dá os frutos esperados e quem realmente leva por tabela é o treinador Fernando Santos. É que, de facto, uma equipa não pode girar em torno de Simão, «O Inegociável», embora seja de facto imprescíndivel e um jogador que parece não perder o fôlego. Brilhante, assim como Nélson que me fez lembrar um pouco Miguel, outro defesa que não me canso de elogiar. Como não podia deixar de ser, o maestro, que é dizer Rui Costa, fez as delícias de quem aprecia bom futebol. Bons jogos. Agora? Nada a dizer, porque falaram demais no início. Quem semeia ventos...

O F.C.P realmente não me trouxe surpresas e penso, sinceramente, que vai ganhar o campeonato. Quaresma é bom mas não imbatível; Lucho inspirado; Postiga, rebelde; Anderson e Pepe são outros dois jogadores que gosto de ver jogar. Bom futebol, regular, coeso. Veremos como se portarão no Bessa e a receber o Belenenses.

P.S: «Quem quiser vir à guerra monta-se nas minhas costas» Paulo Bento

quarta-feira, abril 18, 2007

Finalmente

Já consegui, da minha wishlist, concretizar três desejos:

  • Fui ver a exposição de Art Déco a Sintra - vale a pena ver, está fantástica, com peças de mobiliário originalíssimas; cristais, esculturas, quadros e uma cama de Leleu apetitosa; acessórios femininos como bolsas, sapatos, chapéus que fazem as delícias de qualquer mulher interessada em moda e/ou antiguidades.
  • Estou a ler um livro, sem ser metodológico (apesar de ter de os ler também), de seu nome «As tendências gerais da filosofia na segunda metade do séc. XIX» de Antero de Quental. Eu já tinha lido alguns textos de apoio no 12º ano mas resolvi embrulhar-me mais a fundo com ele.
  • O passeio ao ar livre na Serra de Sintra, ar puro e sentir que naquele espaço de tempo estava o meu corpo a regenerar-se, principalmente os pulmões. A entrada para oPalácio da Pena a 8€? C'mon! É realmente uma pena...

Andam à beira dos passeios,
à procura de algo mais,
descem ao ínfimo de devaneios,
enojando-se dos rostos sempre iguais.

Passeiam-se,
não sonham, não podem.
Vidas sem futuro,
pois esse já o sabem...

Ignoram olhares,
ou talvez não.
orgulho próprio deixado para trás,
vontade própria ou ganha-pão?

Amor, quem ou o que é?
Saberão disso algum dia?
Talvez num clarão de ideias,
talvez numa situação demasiado tardia.

Aperaltam-se, transformam-se,
tudo é deixado, vida nova.
Vida de sempre, devassidão.
Histórias para contar?
Muitas onde não há lugar
para resumos de amor, respeito,
onde só há lugar para a coragem,
para a luta, para o continuar e não parar.

sábado, abril 14, 2007

Lembro-me de mim algures entre a árvore da ciência, que nem bem nem mal tem, e um cheiro qualquer de uma rua de Marraquexe, dou por mim a olhar-me obssessivamente e penso que ando à deriva num mundo cada vez mais obsoleto e com o esqueleto podre. A água escalda e os pensamentos vão, pelo cano abaixo, juntamente com a água e espuma cheirosa, cheia de pêssegos, amêndoas doces e um travo de leite. Oiço uma segarrega vinda do rádio, esse objecto raro nos dias que correm, e esqueço-me da estima que lhe tenho virando com firmeza o botão para o off e dando-lhe uma pancada desdenhosa, que eu ando realmente com um espírito rebelde, sem conseguir ser o que quero, porque todos me adoram assim: uma sensível saída de um filme dos anos 50, muito pestanejante, muito dedicada, muito formosinha, muito caladinha porque as mulheres não foram feitas para falar.
Não sei se sou eu que tenho a mania de que a terra gira ao contrário ou se são as pessoas que andam viradas do avesso, diz-me um velhote do café onde costumo ir em dias de não me apetecer ir a lado nenhum, e eu aceno-lhe afirmativamente entre um trago decidido no café e uma olhadela de soslaio no jornal tão banal como quem o escreve.
Volto à cama de onde hoje não devia ter saído e sinto um corpo a meu lado de todos os dias que eu adoro mas que não quero. Sinto-me ser beijada atabalhoadamente e viro-me ao encontro do rosto que venero mas as feições parecem-me horríveis desta vez, um olhar baço sem o brilho do amor. Toma-me nos braços e eu, sem defesa, deixo-me ir cerrando os dentes com toda a força e entupindo o pensamento de como poderei ser eu usar aquele traste. Não me ocorre nada, sou demasiado sensivel ou estupidamente sensível e digo que o amo. Ignora-me e passados alguns minutos chama-me outro nome, de uma mulher que conheço bem. Pensavas que eu tinha cabelos escuros?, pergunto-lhe sem no entanto ver a mínima importância no seu semblante, São claros meu caro! Saio dali, porque não me apetece aquele cheiro carnal, devasso e deixo-lhe uma nota na mesinha de cabeceira porque o desempenho não foi mau de um todo e um bilhete escrito muito à pressa com ordens de se ir embora porque afinal sou eu que pago tudo naquela casa. Compreendeu bem a mensagem e eu desfeita em lágrimas, queria que voltasse mas lembrei-me do que o meu pai me disse, o unico homem que gosta de ti sou eu, e sofri calada o resto dos dias da minha vida.

terça-feira, abril 10, 2007

Uma fobia

Sonho muitas vezes que estou numa estrada enorme, com caminho a perder de vista, campos verdes a rodearem-me, um céu azul celeste, as andorinhas, eu murmuro «and i think to myself what a wonderful world», conduzo um carro qualquer sem definição de cor, marca, tamanho, apenas conduzo como se o automóvel fosse a continuação do meu corpo.

Os amigos perguntam, a família pressiona, eu permaneço estática perante a problemática da condução. «Então quando tiras a carta?» e subitamente «já está na altura...» vêm despoletar apenas uma resposta, a frase feita sem pensar - «é este ano» - e que ando a dizer há algum tempo atrás. Confesso aos pais o medo de conduzir, recebo do único que é condutor um «também eu tinha medo mas depois passa» e eu fico na mesma.

Quando viajo com a família, namorado, amigos, não tenho medo, antes pelo contrário, tenho confiança, estou descontraída, se eles acelerarem um pouco, não me faz confusão nenhuma. Gosto imenso de carros, dos modelos, das cores, da cilindrada, mas não gosto de me sentar no lugar do condutor.

Penso para mim mesma que vai ser mesmo este ano, mas os números que aparecem no telejornal quanto a acidentes de viação fazem-me recuar... Tenho realmente amaxofobia, gostava de vencê-la e pensar, como no meu sonho, que vivo num mundo fantástico.

segunda-feira, abril 02, 2007

....outros existenciais

o medo...

enquanto não vens,
com esse sinal de anjo branco...
Sinto medo de te não ter,
de te não olhar o rosto.

Calam-me as palavras rudes,
impuras, soltas, sem nexo!
Tenho medo quando falas,
quando meus sonhos calas.

Medo do vento que passa,
que te colhe na atmosfera cinzenta;
da chuva e marema;
de não sentir o cheiro a feno e lírios pela manhã.

....outros eróticos

És todo ser selvagem,
entranhado te está o calor passional.
Consumo-te até ao êxtase,
num gemido brutal,
um grito que ecoa por dentro!

Sigo os teus passos - dou-me.
Ser parte de ti é o que mais quero.
E desespero enquanto não chegas,
leve como uma brisa celestial,
cheio de palavras nos olhos!

Ressuscitas-me - dentro de mim.
Estou morta - pelos dias que não te sinto...
Sinto-me viva, toda carne fervente,
toda paixão efervescente!
Sinapse fluorescente!

Uns versos burlescos....

Existirá sempre caminho,
enquanto estrada houver.
Entrar nela um bom carrinho,
e seja o que Deus quiser!


Estava a ver a tua máquina:
que bela cilindrada!
« Com bom óleo ela atina!»
Assim, pus-me nela descansada...

- Ai como isto anda!
- É a qualidade do motor.
- Mas não abranda?
- É à vontade do condutor.

E não parei de conduzir,
o carro colossal!
- Que bem que estás a ir!
- A tua máquina é que é bestial!

Tive de reduzir a velocidade,
para não causar acidente.
Mesmo com a adrenalina própria da idade,
há que ser bastante prudente!