Para os que não apreciam Bocage... (e para os que o adoram)
Segundo Gomes Monteiro, fazendo uma análise de Bocage, haviam particularidades de Bocage que se foram desvanecendo com o passar dos tempos. Muitos escritores, com poder criativo que lhes é inerente, acharam mais lucrativo atribuir ao nome do poeta piadas obscenas, daquelas que ficam no ouvido e vão passando de boca em boca, do povo. E já se sabe o velho ditado: «quem conta um conto...». Mas que é do Bocage dos sonetos imortais? Pouco lhe conhecemos. O Bocage que interpretou Ovídio e Anacreonte, fazendo leituras que o tempo se esqueceu. Ninguém deu pelo Bocage que traduziu Castel e Dalile, valorizando o original. Uma capacidade extraordinária de improviso. E não se esqueçam que tudo isto estava para ser abafado pelo intendente Manique...
Liberdade, onde estás? Quem te demora?
Quem faz que o teu influxo em nós não caia?
porque (triste de mim), não raia
já na esfera de Lísia a tua aurora?
Da santa redenção é vinda a hora
a esta parte do mundo, que desmaia.
Oh! venha... Oh!, venha, e trémulo descaia
Despotismo feroz que nos devora!
Eia! Acode ao mortal que, frio e mudo,
oculta o pátrio amor, torce a vontade,
e em fingir, por tremor, empenha estudo.
Movam nossos grilhões tua piedade;
nosso númen tu és, e glória, e tudo,
mãe do génio e prazer, ó Liberdade!
Bocage


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