Esquissos do ser
Alguns rabiscos do que somos. Relatos de uma vida, projectos em desenvolvimento intelectual, impulsos característicos do ser humano
segunda-feira, dezembro 25, 2006
E bebo pela alegria, pelo convívio, pela tristeza passada antes: enfrasco-me no carolans, martini, antes o aveleda e um nada de Moscatel de Favaios e a lista continua.... Não é que seja bêbeda, mas gosto de saborear. Agora afogo-me aqui sozinha no meu quarto e sinto-me... obtusa. Fumar um cigarro, pensar na vida, introspecção. Achar-me, perder-me de propósito, ver a alma... Encontrar-me-ei?
Merry Christmas
Mais um dia. Recebo mensagens pre-feitas no meu telemovel de gente que já não me dizia nada há meses... é natal - e transponho para aqui o prvérbio de outra quadra festiva «(...) e ninguém leva a mal». Filhós, rabanadas, coscorões, bolo-rei e a lista continua, assim como o trabalho que me deu a fazer a maioria das coisas, conjuntamente com a minha mãe, cansada de um dia de trabalho das 4h às 11h, com os anos da vida a pesarem-lhe nos ombros. Visitei a minha tia que tomava conta de mim, que respondia à minha rebeldia de criança pertinente com um sorriso, uma graça, sem castigos. A minha avó... querida e com uns incríveis 89 anos. São estas pequenas coisas, mais o lume fantástico que o meu pai fez que, parecendo paradoxal, apagou algumas conversas acesas de hoje, de sempre, do quotidiano.
quinta-feira, dezembro 21, 2006
Pensava ela que eu não a amava...
mas cá dentro ainda está tanto para lhe dizer.
Palavras que agora serão ditas por outro,
cheias de eufemismos, hipérboles.
As minhas: sinceras, puras,
tanto quanto isto que me corrói;
por não lhe ver a face esguia;
por não sentir gotículas do seu aroma,
pairando no ar, chegando a mim,
inconfundivelmente doce!
E queria eu tê-la de volta e dizer-lhe:
que um homem também chora,
que não existe a razão nestas coisas do amor,
que perdi anos da minha vida sendo aquilo que não sou!
[fumo um cigarro, para ver se a dor desvanece]
dói-me a alma, está suja, degradada....
lembras-te das tardes na minha casa?
Nunca fazia o chocolate como querias....
nunca fiz nada como tu merecias.
Agora deixo-me estar: febril, desleixado,
à espera que alguma bacteria, virus se lembre de mim.
Qualquer dia estoiro!
Saber que não te mostrava o que significam os nossos momentos,
sem nada te dizer, com silêncios e.... a tua fome de viver!
O teu olhar faminto, cheio de esperanças, de fogo, de terra,
para sempre perdido do meu, sem expressão, tão morto, ausente....
Abraçar-te-ia por um segundo apenas,
sentir o teu aroma e o teu coração a bater junto a mim...
dizer-te a palavra que nunca te disse... baixinho, só para saberes.
Feelings
Sinto que estou a perder muita coisa de mim, sinto que estou a perder tempo e cai em cima da minha cabeça o medo dilacerante de não conseguir.... alcançar um futuro melhor. Assombram-me as dúvidas existenciais, daquelas fraquinhas, nada de muito heavy ( se me permitem). Tenho aquilo que quero mas não é o suficiente e, sei bem, que não tenho lutado muito por isso, ou será que tenho? ás vezes costumo dizer que sou acompanhada por uma estrelinha da sorte, que me ilumina e me põe qualquer coisa boa no caminho. Tipo cenas de pita parva. Mas as coisas pueris têm que se lhe diga.... ao menos as pitas têm a capacidade de sonhar, mesmo que os sonhos não se concretizem. Se calhar estou na fase de transição ou serei eu uma eterna pita? Se é para ter a capacidade de sonhar e rir, então que o seja! Hoje estou adulta, não me sinto alegre, apetece-me deitar na cama e só acordar amanha de manha. sinto raiva das pessoas de todos os dias, no reboliço de Lisboa, da amálgama. Sinto frustração e preparo uma lista de coisas que devo mudar, na minha mente. É uma lista tão grande ou tão pequena como outra coisa qualquer, mas chega para nela tudo caber.
Gostaria de ser alguém no topo de uma hierarquia, mas por mim própria, com o meu esforço, mas sem ter de abrir as pernas para ninguém; gostaria de ser uma pessoa que fosse reconhecida pela sua inteligência mas para calar a boca dos homens ,que a «escondem», teria de abrir as pernas a alguém; gostaria que confiassem em mim, no meu talento sem terem de me olhar para o decote ou então ser abafada porque a chefe é uma mulher e não suporta a concorrência. Assim, contento-me com isto que sou: vivo na sombra mas ao menos abro as pernas para quem eu quero. Contento-me com a minha humildade, com algumas qualidades que são reconhecidas por quem gosta de mim mas, mesmo assim parece-me que só dão valor aos defeitos. Naturalmente humano
domingo, dezembro 17, 2006
Não sei se mais alguém reparou mas que foi ingenuamente delicioso, foi. Estando eu num restaurante chinês a acabar de tomar a minha refeição de sábado à noite, descansada, ouvi a simpática empregada, de sorriso constante - roçando a distensão maxilar - dizer o típico «obrigada, bom fim-de-semana» recebendo o «igualmente» como resposta. Até aqui normal. Mas o engraçado, que me fez logo fazer uma análise ligeira foi o desejo de «Bom Natal» da empregada, seguido do típico «igualmente».... Tradições. Acredito que haja 1% de chineses cristãos na China, aqui em Portugal, não sei qual a percentagem. Seria um golpe de sorte a simpática empregada reconhecer os votos de festas felizes... de origem cristã. De facto, vivemos nesta aldeia global e estas frases são uma forma de aculturação e, muito mais que isso, a frase que fica bem dizer.
sábado, dezembro 16, 2006
... a propósito da cereja
a uma cerejeira em flor
Gostava tanto de me encontrar na vida
como o à-vontade desta cerejeira
e sentir a terra na raíz
e dar versos ou florir desta maneira.
Abrir os braços e deixar caír
flores, folhas ou o que quer que seja,
e ver o tempo, como um bicho verde,
a roer o coração de uma c e r e j a.
2ª versão
Acordar ser na manhã de Abril
a brancura desta cerejeira
arder das folhas à raíz,
dar versos e florir desta maneira.
Abrir os braços, acolher aos ramos
o vento, a luz ou o que quer que seja;
sentir o tempo, fibra a fibra,
a tecer o coração de uma c e r e j a.
Eugénio de Andrade
A fada madrinha
E será sempre assim: haverá sempre uma senhora muito boazinha no mundo de encantar que salva a menina pobre, convertendo-a numa princesa; colocando um príncipe encantado no caminho de uma princesa muito bonita em fuga; pózinhos de perlimpimpim a transformarem uma realidade que não se quer.
É bom que se mantenha a magia e que hajam fadas-madrinhas nas nossas vidas, mas ao contrário do que acontece nos contos de fadas, elas são de carne e osso e têem limitações.
Podemos sempre contar com a magia de quem nos faz bem, de quem é mágico nas nossas vidas mas há que salientar: nós também somos fadas-madrinhas de alguém... Reciprocidades.
sexta-feira, dezembro 15, 2006
... ainda da modernidade
Como tinha escrito anteriormente, pensar modernamente, significa pensarmos no outro como ser integrante no sistema. Mais do que integrante, deve ser fundamental verificá-lo (o sujeito) nos vários papéis que desenrola na sociedade ou na comunidade.
Alastro o tema para as relações afectivas e, como não podia deixar de ser, colocar o enfoque na histórica rivalidade (que não chega a ser, escrevendo já de seguida o porquê) entre homens e mulheres. Na mentalidade do homem diacrónico, antropologicamente falando, não há a concepção da mulher como rival porque a mulher não intervém no seu mundo de sempre, o universo global onde se encontram todas as possibilidades. Á mulher é-lhe confinado um espaço diminuto que insurge numa simbólica densa, como é a de Pierre Bourdieu. A casa é o espaço fechado, caracteristica que se deve estender à personalidade padrão da mulher: fechada = tímida, que permanece calada, que faz o que o marido ou senhor lhe pede.
Hoje em dia, embora muito cinicamente, mudaram-se os papéis da mulher: a mulher é participante no mundo global e a casa já não é tanto dela, o homem está participante nas tarefas domésticas. Existe um maior equilibrio ao nivel intimo, familiar. Aqui não haverá rivalidades, no seu sentido lato.
Cada vez mais as mulheres estão à procura de homens, enquanto objectos sexuais, sem qualquer tipo de pretensão em afectos, carinho, paixão. Apenas sexo. E esta mudança tem assustado alguns homens, outros até parodiam (recorrendo à sinceridade) e dizem: «oh estou a ser objecto sexual, socorro...». Salvadores da masculinidade.
A grande questão é que este tipo de atitudes leva ao seguinte tema: egocentrismo. Existe a concepção do outro apenas como afectante, positiva ou negativamente, consoante a situação, entenda-se. Não existe a prevalência de vermos o outro como um todo mas sim como uma parte, que neste caso, convém afectar positivamente.
quinta-feira, dezembro 14, 2006
Da modernidade
Dizem que ser moderno é ter produtos advindos da alta tecnologia, assim como vestir roupas das marcas mais in vogue. Ao ver passar certas pessoas vejo-lhes a modernidade espelhada, na base nº 3 da Lancôme, no perfume másculo de Hugo Boss. Embora estes sejam apenas adereços da modernidade.... A modernidade vem de dentro, parte do pensamento: dar conceitos aos objectos, pensar no outro como elemento integrante no sistema. Acerca deste ultimo ponto, uma pérola, esta da qual me lembrei: a fazer as 4 horas do meu part-time num callcenter, cerca das 20h contacta-me um senhor, de voz roufenha mas muito insigne, dizendo que estava muito insatisfeito com o serviço. Perguntei-lhe o motivo da insatisfação e é aí que ele me relata um único episódio em que não lhe foi resolvido o problema, técnico por sinal. Chegada uma determinada altura da nossa conversa, rondando sempre este assunto, confronto-o: «vejo aqui no seu histórico de cliente que não tem qualquer reclamação e que tem beneficiado de ofertas por parte da nossa empresa. Foi, ao que vejo, a unica situação que reclamou, certo?» Resposta: silencio, seguido de uma tossezinha tímida e um «pois...»
Este relato serve para mostrar que a generalidade das pessoas generaliza. Parte do comum, do particular para fazer disso a regra.
quarta-feira, dezembro 06, 2006
Inerte depois da notícia dada. Pensei: «estão todos a ir embora», aqueles que sempre me acolheram com um sorriso aberto, que me abraçaram com o calor real de pessoas que gostam, que sentem! Lembro-me das suas histórias de um quotidiano tortuoso devido às dificuldades tidas por gente que nunca teve nada realmente seu, remexendo a terra, implorando o bom tempo e o trabalho certo. Lembro-me também dos relatos de certo e determinado baile, nos tempos de juventude, e do vestido de chita de fulana ou sicrana, do cheiro da maçã bravo - de - esmolfe na feira de Moura e do azeite dessa, então, vila.
A humildade, a generosidade, a grandiosidade de saber tanto sem saber ler nem escrever são características que se estão a perder para dar lugar ao mundo em que estamos: sem laços de ligação com as pessoas, a caír no cada vez maior individualismo.
Para sempre a tua energia, a tua pujança para a vida, o teu sorriso sincero Catarina... minha querida tia Catarina
segunda-feira, dezembro 04, 2006
Desenvolvimento - I
Um dos principais indicadores de desenvolvimento num determinado país é, sem dúvida, a taxa de alfabetização. Em Portugal, é um facto que a taxa de analfabetização tem decrescido, sendo que em 1970 havia uma percentagem de 25,6% contra os 9% de 2001. Mas, também é facto que a difusão da escolaridade básica tem sido lenta, muito devida à política ditatorial que tivemos em grande parte do séc. XX (4 décadas!). Com a vinda da tão esperada democracia, alargaram-se os níveis de escolaridade obrigatória (para breve o alargamento para os 12 anos), apostou-se na formação dos professores, reformas educativas, melhorias nas infraestruturas para receber as massas. A questão incide no seguinte: as mudanças efectuadas não estão concordantes com a eficácia do sistema de ensino português. Houve um atropelamento completo, apostando-se muito e depressa.
No séc XX, verificaram-se transformações nos sistemas de emprego. Em portugal, essas transformações também se verificaram mas, se formos ver que 4 décadas foram vividas sob a alçada ditatorial, veremos que o emprego seria apenas para o universo masculino e a escolarização oportuna somente para alguns, isto falando no ensino médio e superior. A partir da década de 60-70, comparativamente aos países mediterrânicos de semelhante bagagem cultural, os níveis de emprego subiram muito devido ao aumento da mão-de-obra feminina e à mobilização de militares. Assim sendo, o desenvolvimento deste país deve-se em muito à emancipação da mulher: a sua cada vez maior adesão ao ensino e ao mercado de trabalho. Ainda que hajam cinismos de muitas partes, uma cultura do macho-latino-dominante, verifica-se que, de acordo com o último estudo da OCDE de 2001, a taxa de emprego feminino é de 61%. Isto para dizer que, quando seguimos uma cultura enraízada em estigmas, estereótipos, repressões, o desenvolvimento dá-se lenta e parcialmente, facto que não traz benefícios gerais.


